A maior expedição do marechal Cândido Rondon completa um século, quando sua obra é reavaliada e volta a inspirar o voluntariado jovem nos rincões mais pobres.Um híbrido de bandeirante e jesuíta. Somente essa mescla inusitada pode descrever o espírito do brasileiro Candido mariano da silva Rondon. Militar, sertanista, geógrafo, indigenista – as definições são tão variadas quanto seus feitos, o maior dos quais comemora um século. Em 1907, Rondon aceitou o desafio de construir uma linha telegráfica ligando o estado do Mato grosso ao Amazonas e Acre, cortando terras nunca antes pisadas pelo homem branco. Indagado pelo presidente da República Afonso Pena sobre a possibilidade de sucesso de sua expedição, teria respondido: “É só querer!”.
Rondon era o mais indicado para a missão, pois sabia muito bem o que esperar. Engenheiro militar diplomado e bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais, trabalhava na Comissão Construtora de Linhas Telegráficas e já tinha acumulado dezessete anos de experiência na exploração de selvas mato-grossenses e no contato com tribos desconn3cidas. O balanço de atividades daquela que fica conhecida como Comissão Rondon impressiona; inaugurou 25 estações telegráficas no longo de 2.268 quilômetros de cabos, bem mais da metade em plena selva.
Um mero executor poderia ter levado a cabo a empreitada, mas Rondon foi além. Em oito anos, de acordo com biografia Uma Relíquia da Pátria (1942, Editora Guairá), escrita pelo coronel Amílcar de Magalhães chefe do escritório centras da comissão, o grupo coletou mais de 23 de maio exemplares de animais, insetos, vegetais, rochas e objetos indígenas. Mais: descobriu e inscreveu no mapa quinze rios; corrigiu outras inúmeras imprecisões cartográficas, contatou e pacificou aproximadamente trinta mil índios, não sem sustos. Em relato sobre a expedição do rio Juruena, que partiu em dois de setembro de 1907 da vila de Diamantino, a 184 quilômetros de Cuiabá, Rondon contou: ”Haviam se passado 48 dias de marchas e trabalhos. A 22 de outubro a expedição partiu para visitar a aldeia dos índios. Súbito senti no rosto um sopro e divisei algo, rápido e fugaz como se fosse um pássaro que cruzasse o caminho... O que eu vi não foi um passarinho, mas a chopa erecta e vibrante de uma flecha, com a ponta encravada no solo – alguém errara o alvo!” E essa não foi a única vez. Em um encontro com os Nhambiquaras, Rondon foi salvo porque a flecha atingiu a correia de couro de sua arma.
Tal tipo de ataque a qualquer outra equipe seria respondido com tiros. Mas a Comissão Rondon era guiada por uma máxima pacifista: “Morrer, se preciso for, matar, jamais”. Descendente de Bororo, Terena e Guaná, Cândido Rondon lutou por uma política capaz de manter a integridade social dos indígenas e garantir-lhes a sobrevivência com dignidade. Conta-se que, enquanto as linhas telegráficas avançavam mata adentro, Rondon fixava cartazes advertindo que “quem d’ora em diante, tentar afugentar os índios de suas legítimas terras terá de responder perante o chefe da Comissão.
Em 1910, Rondon ajudou a organizar o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que dirigiu sem deixar o comando da montagem da linha telegráfica. Esse órgão seria responsável, em 1952m pela criação do parque Nacional do Xingu que, segundo levantamento de 2002, abrigava mais de quatro mil integrantes de catorze etnias – uma considerável evolução demográfica, considerando que em meados da década de 1950, uma epidemia de sarampo dizimou uma grande quantidade de índios da região. Depois de 53 anos de atividade, o SPI se transformou na Fundação Nacional do Índio (FUNAI), com sede em Brasília, 45 administrações regionais, 14 núcleos de apoio indígena, 10 postos de vigilância e 344 postos indígenas, além do Museu do Índio no Rio de Janeiro.
À sombra de tantas conquistas, o explorador que redescobriu o Brasil mantinha a humildade dos grandes. Magalhães conta que , quando era elogiado,, não hesitava em retrucar: “Não, senhor, eu nada fiz, tudo foi realizado pelos meus dedicados auxiliares”. De fato, ele estava muito bem assistido por botânicos, Zoólogos e outros cientistas, que deixaram um legado riquíssimo e ainda hoje rendem estudos. Fernando de Tacca, professor do departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação da Unicamp, por exemplo, elaborou sua tese de doutorado sobre obra deixada por Luiz Thomaz Reis, o fotógrafo e cineasta da Comissão.
“As expedições dentro da selva, abrindo picadas e fazendo levantamentos geográficos eram penosas e muitas imagens fotográficas e cinematográficas foram perdidas em travessias de rios perigosos ou mesmo na revelação dos negativos, quando os insetos devoravam a película”, explica o pesquisador, o que redobra a importância dos originais – revelados em laboratórios improvisados à noite na mata fechada – que sobreviveram às desventuras tais como Os Índios Coroados, mais conhecido pelo título de Rituaes e festas Bororo, Gravado em 1916 e editado em1917, é considerado um dos primeiros filmes do cinema etnográfico do mundo.
Mesmo sabendo-se que os índios Bororos já tinham entrado em contato com a civilização branca e dominavam técnicas não tradicionais como o cultivo e moagem da cana, a película, na versão final, fazia questão de mostra somente costumes ancestrais, como o chocante funeral. Cumprindo o ritual da morte, o cadáver é exumado o molhado diversas vezes, ao longo de dois meses. No final, quatro bororos descarnam, limpam e ornamentam para a sepultura final.
“Rondon alimentava o espírito nacionalista, construindo etnografias de um ponto de vista estratégico e simbólico: a ocupação do oeste e Norte através da comunicação pelo telégrafo, e pela visualidade da fotografia e di cinema mudo”, analisa Tacca. Todo esse registro iconográfico tinha ainda um segundo destino. Exibições públicas – que embaraçavam as recatadas senhoras das capitais, não acostumadas ao nu nas telas – álbuns de alta qualidade gráfica impressos no exterior – não raro com mais de duzentas fotos – correram o mundo e podiam ser encarados como um pioneiro projeto de marketing para arregimentar apoio e patrocínios.
O caminho de Rondon se cruzou com o de personagens históricos. Um deles, o coronel Percy Harrison Fawcett, aventureiro britânico que buscava descobertas arqueológicas ao redor dos quatro continentes, morreu nas matas amazônicas em ter encontrado uma sonhada cidade perdida. Outro, o ex- presidente norte americano Theodore Roosevelt, o acompanhou em um a expedição de Mato grosso em1913 a 1914.
A obra de cândido Rondon não tardou a ganhar o reconhecimento internacional. Em 1913, o congresso Universal das Raças, reunido em Londres, recomendou o método rondoniano de atração de grupos isolados a todas as nações do mundo. Um ano depois, a Sociedade Geográfica de Nova York lhe concedeu o Prêmio Livingstone e dedicou uma placa na galeria de personalidades com seu nome e os dizeres gravados em ouro: “O explorador que mais avantajou em terras tropicais”.
Em seu próprio país, as homenagens demoraram as chegar, no melhor exemplo de que santo de casa não faz milagre. Ao completar 95, em cinco de maio de 1955, Cândido Mariano da Silva Rondon foi promovido a marechal. No ano seguinte a 38ª Conferencia Internacional do trabalho, realiza em Genebra, aprovou como norma básica para que os países que têm problemas com populações indígenas a legislação brasileira em vigor na época inspirada em seu trabalho -, viu território der Guaporé passar a se chamar Rondônia. O amigo dos índios morreria pouco depois no Rio de Janeiro no primeiro mês de 1958.
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